Além da regressão e da misoginia (parte 1)
“Se não cuidarmos uns dos outros, a humanidade acaba.”(Idalina, 58 anos, assentada no Pontal do Paranapanema) Há exatos dez anos, eu estava na Câmara dos Deputados em Brasília. Testemunhei de...
“Se não cuidarmos uns dos outros, a humanidade acaba.”
(Idalina, 58 anos, assentada no Pontal do Paranapanema)
Há exatos dez anos, eu estava na Câmara dos Deputados em Brasília. Testemunhei de perto a misoginia, em todas as suas formas e cores.
A campanha ostensivamente misógina estava na rua, nos jornais, na mídia, nas redes sociais, nas manifestações e no plenário. No melhor tratamento foi chamada de descontrolada e sem juízo. A presidenta Dilma Rousseff sofreu misoginia, isto são fatos e é a história.
Todavia, a compreensão completa deste acontecimento misógeno necessitava de um contraponto. Na mídia, a mulher do ex-presidente Temer foi apresentada como “bela, prendada e do lar” em oposição aquela cujo poder seria tomado, pois violara as expectativas do patriarcado.
Lima Barreto, em 27 de janeiro de 1915, publicou uma crônica no Correio da Noite com o título “Não as matem”. O texto denunciava a violência contra a mulher, criticando os “crimes passionais” e a ideia masculina de propriedade.
Decorridos cem anos entre estes fatos constatamos um paradoxo: de um lado, houve um grande progresso com relação a igualdade de gênero, seja na legislação, nos costumes, na vida social, na individualidade e no mundo do trabalho. Por outro lado, indagamos, por que persistem tantos feminicídios, estupros e agressões no país?
A hostilidade em relação às mulheres parecem aumentar e a misoginia persevera. São resultados de uma estrutura social e não fatos isolados que naturalizou o machismo, o patriarcado e aceita o controle do corpo, da vida e das decisões das mulheres.
Os números e o requinte de crueldade assustam. Vejamos alguns dados:
Segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde, de 2022 a 2025 foram registrados 22.800 casos de estupro coletivo no Brasil. São 15 estupros coletivos por dia;
Segundo o Conselho Nacional de Justiça, o número de medidas protetivas, entre 2020 e 2025, saltou de 300 mil para mais de 600 mil solicitações anuais;
Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2015 e 2025 o Brasil acumulou 13.474 vítimas de feminicídio chegando a 1.548 vítimas em 2025, quatro mortes diárias, com forte incidência sobre mulheres negras e em contexto de vulnerabilidade socioeconômica;
No Estado de São Paulo, federação que sistematicamente tem cortado o orçamento público de combate a violência contra a mulher, registou um recorde: 55 feminicídios nos primeiros dois meses de 2026. Somente em fevereiro último ocorreu 256 estupros;
Mais de 21 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência (físicas, verbais ou sexuais) de março de 2024 a março de 2025, revela pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Os dados qualificam uma negação explícita à humanidade das mulheres. Há algo além do sexismo e do machismo. De onde vem e o que é misoginia?
Existem 36 Projetos de Lei que abordam a misoginia em tramitação na Câmara dos Deputados, focados no combate à violência e ódio contra mulheres. Entre eles o Projeto de Lei n. 8.992, de minha autoria, protocolado em 2017 e que tipifica a misoginia como crime, equiparando-a ao racismo. Todavia, até a aprovação do Projeto de Lei no Senado Federal, poucas pessoas tinham ouvido a palavra misoginia, apesar de muitas mulheres a terem experienciado e vivenciado em suas vidas.
Misoginia é um tipo de ódio sistêmico, preconceito e desprezo às mulheres. Se manifesta de diversas formas: xingamentos, humilhação, demonização, exclusão, piadas, violência doméstica, abuso sexual e até mesmo as atitudes paternalistas e condescendentes. Abrange a violência psicológica e/ou física. Sua pior face, o feminicídio.
Katte Manne, professora da Universidade de Cornell e pesquisadora do tema, aprofunda melhor este conceito. Considera que a mulher assume papéis, numa sociedade patriarcal, como subordinada “devotada e amorosa” ao gênero masculino. Há uma expectativa dos homens quanto a este comportamento. A hostilidade surge a partir da percepção de violação deste papel, como uma forma de reprovação e vingança. Apesar de a misoginia estar relacionada a estrutura sociais a pesquisadora não exclui a possibilidade de indivíduos serem quilificados como misóginos. Na ordem social e individual a misoginia resulta do desejo de colocar as mulheres na posição de subordinada e submissa.
Este conceito difere do machismo tradicional, um sistema de crença que promove a superioridade masculina e a dominação do homem sobre a mulher. Este ambiente constrói a base social e cultural que faz emergir a misoginia. Assim, a punição ao rompimento da “ordem” machista será a aversão ao feminino, a misoginia. Ainda, o machismo diz respeito as normas da sociedade patriarcal enquanto que a misoginia atua como um sistema de força e coercitivo para o cumprimento da ordem e princípios patriarcais.
Contargo Calligaris, escritor e psicanalista, sustenta que a nossa civilização “foi construída há três mil anos em cima do ódio às mulheres”. Ao darmos um novo entendimento a misoginia, como crime, há um peso histórico, a vivência de mulheres, mães, avos, bisavós viveram sob esta ordem civilizacional e por outro lado, há um peso social, pois atingem diferentemente as mulheres, de acordo com a sua classe social, raça e o lugar que ocupa na sociedade.
Em tempo, recententemente a Ministra Carmem Lúcia, após manifestar que tem lidado com o preconceito e xingamentos ao seu gênero, disse que a sua família tem pedido para que deixe o Supremo Tribunal Federal.
Não se trata somente de um discurso de ódio, mas de um ambiente cultural que naturaliza a violência, a submissão, a desigualdade e que organiza a sociedade. Esta cultura ou “sub-cultura” ganha proporção e dinâmicas nunca vistas através da plataformização da misoginia. Este ambiente conhecido como “machosfera” vai além da aversão a mulher e estrutura uma visão de mundo, uma posição política.
Como compreender que adolescentes cometam crimes sexuais e violência de gênero? Desde a infância são “formatados”, culturalmente, para rejeitar e desprezar toda e qualquer dimensão do feminino. Antes da agressão e do feminicídio, ocorreu a morte simbólica da dimensão do feminino dentro da cultura masculina.
A misoginia como braço violento da ordem patriarcal funciona como uma ideologia. Para a professora Marilena Chauí, ideologia não é apenas um conjunto de ideias, mas um sistema “histórico, social e político” que estrutura e ordena a percepção da realidade e, além disto, também oculta e esconde esta realidade. A misoginia gera assim determinada visão da ordem social patriarcal e, ao mesmo tempo, atua na invisibilidade, se esconde.
Como compreender que adolescentes e jovens tenham uma visão perversa do feminino? O homem desde sua adolescência e juventude assimila e internaliza os valores ideológicos explícitos e simbólicos da ordem patriarcal.
A misoginia é um sinal histórico de regressão da civilização.
No próximo artigo identificaremos os pilares que sustentam a ideologia misógina como também os contextos sociais e políticos em que ela é aprofundada.
Ana Perugini é deputada estadual e procuradora especial das mulheres na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo