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Nossa sociedade precisa de cura, urgentemente!

A comunidade de Campinas vive a perplexidade de uma longa série de mortes, marcadas pela crueldade, em cenas que compõem um mosaico da degradação humana. Tudo em curto espaço de tempo, em poucas horas da travessia do Ano Novo, numa chacina que contabiliza 12 mortos em família. Massacre, que mostrou ao Brasil e ao mundo o peso do machismo e do ódio de um jovem, pai e marido igual a tantos outros homens acostumados à tão perversa cultura de construção do estereótipo da vadia. Feito está, de fato, a se lamentar, mas reagir é preciso. É a nossa responsabilidade!

O machismo é cultural, institucional, e, uma vez propagado sem o enfrentamento dos organismos sociais, torna-se invariavelmente fatal, caso agora registrado, cuja história tem um enredo iniciado há praticamente quatro anos com o fim de relacionamento do casal por conta de suspeita de abuso do pai em relação ao filho, à época também, com quatro anos.

Ainda que a mãe, pelo histórico relatado, tenha tomado todas as medidas, policiais e judiciais, para proteger o filho e a si mesma, a circunstância nos leva a acreditar no enraizamento da cultura de violência e do egoísmo cego, contundente, raivoso, do homem que virou suicida – o que elevou a 13 o número de mortes, em uma sucessão de cenas macabras a envergonhar a civilização.

Numa carta, o ex-marido agressor discorre sobre “umas loucas”, o que na visão dos especialistas, se trata do “sistema feminista”. Graças à consciência de muitas mulheres e ainda ao chamado sistema feminista, as queixas são levadas aos agentes policiais e judiciais.

No Brasil, por anos a fio, até o advento da Lei Maria da Penha, promulgada em 7 de Agosto de 2006 (10 anos), as mulheres vitimadas pela violência conviveram com os abusos caladas, sem ao menos discutir o assunto em família.

A legislação mudou, evoluiu. Além da Lei Maria da Penha, o Brasil adotou recentemente, em 9 de Março de 2015, um termo para designar crimes motivados por gênero, o feminicídio, no rol dos casos hediondos – nosso país ocupa o 5º lugar no ranking desta modalidade entre 84 nações, de acordo com a ONU Mulheres.

É justamente esse engajamento das mulheres, hoje mais conscientes de seus direitos, portanto, mais afeitas a encaminhar denúncias, que colocam em xeque a cultura do machismo, a mesma cultura que leva o ser humano agressor ao cúmulo do cinismo, ao afirmar, em mensagem, que aceita e respeita a mulher que faz o que ele deseja.

Sem dúvida, o que é bem diferente de respeitar as mulheres enquanto pessoas. As demais, as feministas, ou as que revelam consciência e assumem a postura do combate a atos de violência ou a todos os tipos de preconceito, na visão do agressor, são as vadias.

Aliás, a luta contra a impunidade ou em nome da igualdade de gêneros e de direitos e oportunidades, vem de longa data, o que exige de cada um de nós, homens e mulheres, a necessidade de perseverar pela transformação social, em quaisquer lugares, especialmente nas escolas, no processo de qualificação do que é violência e suas mais diversificadas manifestações, e no âmbito interno da família, no aprendizado e convívio dentro de nossas casas.

A imprescindível reação em comunidade, em nível mundial – é importante reconhecer – tem a participação de uma brasileira, a nos confortar e a nos motivar a prosseguir nessa trajetória de respeito aos direitos humanos.

Tem a ver com a inclusão do princípio de igualdade de direitos entre homens e mulheres no documento que, em 1945, no cenário global que se seguiu ao término da Segunda Guerra Mundial, oficializou a criação da Organização das Nações Unidas. “Resultado de uma proposta e da insistência de diplomatas latino-americanas, lideradas pela cientista brasileira, Bertha Lutz”, na Conferência de São Francisco, Estados Unidos, conforme revela Marina Simões, em artigo intitulado “A mulher que a história esqueceu”.

Em nossa história de lutas, nós mulheres, a qualquer tempo, devemos nos indignar com a injustiça com a convicção de que não há nada mais valioso do que a liberdade de escolha.

Que a atuação precisa e intensa de muitas mulheres, Marias…Martas…Bertha Maria Julia Lutz (1894-1976)… possa frutificar em todos os rincões brasileiros, como em todos os cantos do mundo, em defesa da humanidade!

 

Ana Perugini é deputada federal, e coordenadora da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos Humanos das Mulheres.

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