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A luta diária do sistema de saúde

Um turbilhão de ideias tomou conta de mim nos últimos dias, diante de tantos acontecimentos. Ao mesmo tempo que tive a honra de receber um certificado de agradecimento do Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e assumir a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, fiquei espantada com a atitude destemperada de um delegado da Polícia Federal, que, em Curitiba, vandalizou equipamentos de som do Acampamento Marisa Letícia.

E não se trata de defender ideias de esquerda ou de direita. Em algum momento, saímos da rota definida pela Constituição Cidadã de 1988, uma das melhores peças que o Congresso Nacional produziu em toda sua história. Como cristã, o que desejo é a pacificação do meu país. Como parlamentar, que as instituições caminhem com autonomia, tendo como norte a guarda da Constituição, a independência econômica do país e a garantia de que mulheres e homens possam exercer sua cidadania com dignidade.

Ao que me parece, estamos longe disso.

Para ficar somente na área da saúde, um dos setores mais demandados e mais precários do nosso país, o governo federal fez cortes no orçamento de 2018 que comprometem em demasia o atendimento mais elementar. Investimentos em novos equipamentos, instalações e servidores, nem pensar. Para se ter uma ideia da inversão de valores, o dinheiro reservado para pagamento de juros da dívida pública é três vezes maior que o planejado para investimento em saúde. O governo federal abriu mão de R$ 1 trilhão até 2040, ou seja, mais de R$ 50 bilhões por ano, em favor de empresas estrangeiras de exploração do petróleo brasileiro. Com esse dinheiro, poderíamos ampliar em quase 39% os recursos destinados à saúde. É uma questão de priorizar aquilo que realmente é importante para a nossa população.

A situação é crítica até na rede de saúde particular, que também atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os convênios de saúde particulares perderam muitos segurados, em decorrência da crise econômica prolongada — 14 milhões de desempregados passam a depender exclusivamente do SUS.

São os casos do Hospital dos Fornecedores de Cana e da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, em Piracicaba. Ambos os hospitais têm excelentes instalações e inspiram pelo amor com que cuidam dos seus pacientes. A Santa Casa destina 72 quartos para atendimento exclusivo pelo SUS. São mais de 12 mil atendimentos por mês, o que equivale a 60% do total de atendimentos do hospital particular. Sem os recursos para novos investimentos, a direção da Santa Casa — todos voluntários, diga-se — idealizou, em 2011, a campanha “Adote um Quarto SUS e Faça a Diferença”, com o objetivo de remodelar os quartos destinados ao SUS. A resposta da sociedade piracicabana foi imediata e mais da metade desses quartos já estão remodelados. Ao visitar o hospital, pude conferir com os meus próprios olhos alguns desses quartos com a aparência renovada.

O Hospital da Cana, por sua vez, mantido pela Associação dos Fornecedores de Cana de Piracicaba (Afocapi), embora com situação financeira mais equilibrada, também sentiu os impactos que atingiram todo o sistema de saúde no Brasil. Apesar disso, ainda é considerado um dos melhores hospitais do interior do Estado de São Paulo. Referência em cirurgia bariátrica e oncologia (tratamento do câncer), o hospital se destaca pelo serviço em aleitamento materno. Há 12 anos, o Banco de Leite Humano Maria Gessy Cardoso Ribeiro oferece orientação sobre amamentação e faz a captação e distribuição de leite humano para bebês prematuros.

Os dois hospitais receberam recursos do Ministério da Saúde, por meio de indicação de emenda de nosso mandato. Foram R$ 200 mil para cada hospital. Recursos que, a bem da verdade, pertencem ao povo de Piracicaba.

Concordo plenamente com o reitor da Unicamp, professor Marcelo Knobel, que, ao me entregar o certificado e agradecer pela indicação de emenda para compra de um novo aparelho de braquiterapia (radioterapia interna), que deve quadruplicar o atendimento de mulheres e homens no Caism, no valor de 2,5 milhões de reais, disse que o ideal seria que os hospitais recebessem todos os recursos necessários para cuidar das pessoas, sem que para isso fosse preciso recorrer às emendas.

Ana Perugini é deputada federal pelo PT/SP, presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher e integrante das comissões de Educação, Seguridade Social e Família e Desenvolvimento Urbano da Câmara dos Deputados

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