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A ética em tempos de pós-verdade

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis
(heterônimo de Fernando Pessoa)

Explosões de fogos de artifício na virada do ano, por alguns instantes, fizeram nós, brasileiros, não ouvirmos a explosão da violência em chacina e massacres.

No ano que findava, explodiu a cultura do ódio, a agenda da intolerância e a ascensão de um fenômeno antidemocrático, cultivado desde 2006, a antipolítica. Antessalas do fenômeno da demonização da política, sucedida pela sua judicialização que nos tem conduzido à privatização da política: instrumento de poucos, nivelado por um discurso único, difundido a cada noite nas telas dos televisores e ao amanhecer, nas bancas de jornais.

Os fatos políticos de 2016 ilustram. As medidas antinação e antipovo tomadas pelo governo interino serão sentidas agora e anos seguintes pelos mais pobres e vulneráveis de nossa sociedade. Quem se importaria com isso?

Comecei a pensar sobre a política quando as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) faziam apelo “à justiça e à igualdade” e clamava pela “ética na política”. OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ABL (Academia Brasileira de Letras), igrejas, sindicatos e movimentos populares ecoaram estes apelos.

Como falar de ética na política em tempos de pós-verdade, de indiferença solar aos fatos e à verdade, utilizadas ao sabor dos interesses econômicos, da sede de poder e das emoções?

Os acontecimentos de 2016, em especial o desfecho do impeachment, selou o retorno da ética ao domínio privado e particular. Agora fragmentada, há uma ética para cada compartimento da vida: aos amigos, aos inimigos, à minha Igreja, ao meu povo e para a atuação política.

Várias éticas de poder. É o que dispõem as livrarias de aeroportos, por meio de técnicas e códigos para ganhar e manter o poder. Revisões atualizadas, em tom menor, do velho Maquiavel. Receitas plurais para cada situação objetivando… o poder. Nada mais.

Este utilitarismo de botequim político é, no entanto, frágil e não admite o debate e a discussão. A palavra é poder.

A vida, no entanto, não admite compartimentações. Como únicos são os nossos valores e sua fonte. Valores não estão dispostos em gôndolas de supermercados. Eles existem na vivência, no cotidiano do povo brasileiro, daqueles que trabalham, aprendem, oram, choram e festejam…. Existem a partir dos exemplos de vida, não privatizados. Podem ser lembrados e também relegados ao esquecimento.

Não podem ser comprados! Mas os valores podem ser rompidos em nosso coração. Daí a origem do termo corrupção (do latim romper o coração – cordis), triste chaga que atinge nossa política e igualmente o cotidiano das pessoas e famílias.

Qual a saída? Voltarmos ao nosso poço da vida e bebermos aquilo que nos dá dignidade e sentido à nossa vida. Neste ambiente, será mais fácil entendermos a prática política como uma arte e não receita: arte de esculpir em comunidade, não privadamente e nos bastidores, uma nova sociedade; arte de manifestar a solidariedade e a caridade, segundo o papa Francisco, e menos a esperteza; a arte de ouvir os sinais dos tempos e da história e menos o meu tempo e o meu projeto; a arte de ser inteiro e não pelas metades.

Em tempo de “crise ética”, não basta o apelo lírico à transformação da sociedade. Esta é uma ação política. É no embate político que podemos desnudar os fundamentos antiéticos e construirmos as bases de uma sociedade que refletirá a ética na sua vida e na sociedade.

Não existem “mãos limpas” em uma sociedade tão vergonhosamente desigual. Por que querem desabonar e extinguir pessoas que lutaram eficazmente pela justiça e igualdade de condições no Brasil? O ex-presidente do Uruguai alerta: “temos muito ruído, pouca informação”.

Ética é uma reflexão sobre a melhor forma de agir, exige pensar. Cegos pelo poder, pelo ódio e pela esperteza não pensam. Mas também estes fazem história e influem muito em nosso cotidiano.

A ética promove a nossa grandeza de seres humanos. E para ser grande, sê inteiro!

Ana Perugini é deputada federal pelo PT/SP, 2ª vice-presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, coordenadora-geral da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos Humanos das Mulheres e integrante da Comissão Mista de Combate à Violência contra a Mulher no Congresso Nacional. É responsável pelas frentes parlamentares em Defesa da Implantação do Plano Nacional de Educação e de Promoção e Defesa da Criança e do Adolescente, no Estado de São Paulo, e integrante das comissões de Educação, Constituição e Justiça e de Cidadania, Licitações e da Crise Hídrica

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