Artigos

Cidades a serviço do povo

Nasci em Cariacica, no Espírito Santo. Mas, como saí de lá ainda menina, não tenho muitas lembranças da minha terra natal. O lugar em que me sinto em casa, hoje, é Hortolândia, jovem município do interior de São Paulo, do qual tenho muito orgulho e ao qual faço questão de me declarar nas viagens que faço pelo país.

Eu acho que amo tanto Hortolândia porque me sinto parte dela. Quando cheguei, não havia asfalto, luz, água, coleta de esgoto, transporte público, praças, jardins e tampouco uma cidade. Tive o privilégio de lutar, ao lado dos moradores do então distrito de Sumaré, pela emancipação política e por uma série de melhorias que, nos últimos 12 anos, transformaram uma cidade-dormitório, formada por migrantes, em uma das cidades mais dinâmicas e bem administradas do país, segundo classificação da Federação da Indústria do Rio de Janeiro (Firjan).

Foram as lutas e as conquistas da população hortolandense que me ensinaram que uma cidade só prospera quando seus governantes percebem que sua maior riqueza é seu povo e se abrem à participação popular, levando seu gabinete para as ruas. É esse sentimento de pertencimento a chave para municípios fortes, com comunidades unidas, que lutam quando têm que lutar e celebram quando as vitórias são conquistadas.

Antes de chegar a Brasília, fui vereadora e deputada estadual em dois mandatos. Foi na Câmara de Hortolândia que mais trabalhei, levando meu gabinete aos bairros, atendendo a população das 8h às 22h e apresentando propostas para melhorar a vida das pessoas. Ajudei na criação do Banco de Alimentos – que é administrado pela prefeitura e, atualmente, distribui uma média de dez toneladas de alimentos por semana a aproximadamente três mil famílias – e do Bolsa-Creche, programa que permitiu convênios com escolas particulares e deu início a uma trajetória de queda no déficit de vagas no município.

A participação de movimentos sociais, populares e a militância no Partido dos Trabalhadores, no qual estou desde 1981, me transformaram em uma defensora ferrenha dos municípios, obstinada pelo fortalecimento das cidades e dedicada à criação de políticas públicas que possam contemplar todos os segmentos da comunidade, gerando emprego e renda, oferecendo educação de qualidade, opções de lazer e proporcionando bem-estar às famílias.

Aliás, essa é uma característica dos governos de esquerda. Nossas gestões são voltadas às pessoas. Embora reconheçamos a importância de pontes e viadutos, buscamos obras, programas e projetos que influenciem diretamente na vida da mãe, do pai, do filho e dos demais membros dos lares brasileiros.

Hortolândia, por exemplo, acaba de registrar um dos maiores crescimentos do país no Ideb, índice que mede a qualidade do ensino e do aprendizado nas escolas. Na avaliação feita em 2015, os alunos obtiveram nota 6,5, meta estimada pelo Ministério da Educação para 2019. Mas a cidade não avançou apenas construindo unidades escolares. Além dos mais de 22 milhões aplicados em reformas, ampliações e prédios novos, nos últimos três anos, a prefeitura tem investido na humanização e na capacitação dos educadores.

Os 23 mil estudantes da rede municipal ainda recebem material escolar e uniformes, que confeccionados por meio de um projeto social de qualificação de pessoas que estão fora do mercado de trabalho. A iniciativa da Secretaria de Educação gera economia de quase 70% para os cofres municipais, garante emprego formal e renda às costureiras, preserva o orçamento das famílias dos alunos e propicia um ambiente agradável e harmônico nas salas de aula, o que contribui, sobremaneira, para a melhora do desempenho escolar.

Esta semana, comecei a ler o livro “Desafios das Cidades – Desenvolvimento com Participação e Inclusão Social”, escrito por um coletivo de autores, a maioria deputados federais que já foram prefeitos e compartilham experiências de sucesso nos quatro cantos do Brasil. São políticas públicas de administrações petistas que mudaram os municípios e acabaram adotadas no país afora.

Entre as experiências bem-sucedidas relacionadas no livro está a Secretaria de Políticas para Mulheres de Lauro de Freitas, na Bahia, a primeira a ser instalada no país, em 2005, com uma atuação inspiradora na defesa dos direitos das mulheres e na organização das entidades locais. A pasta foi criada na gestão da então prefeita Moema Gramacho, minha companheira na Câmara dos Deputados.

Eu tenho convicção de que podemos usar a política para transformar a vida das pessoas. E não há outro lugar para começar essa mudança além dos municípios. É na cidade que nascemos, crescemos, brincamos, estudamos e aprendemos valores fundamentais, como amizade, lealdade, bondade, generosidade, respeito e honestidade. Enfim, nossa vida começa e termina na cidade.

Não é por acaso que a palavra cidade vem do latim civitas, que significa “condição ou direitos de cidadão”. Ou seja, por direito, a cidade é das pessoas. E não existe sentido na concepção de um município se ele não estiver a serviço do povo. A construção de cidades para o futuro deve ser o principal compromisso de parlamentares e gestores públicos, nos mais de 5,5 mil municípios do país. A cidade é viva! Viva a cidade!

Ana Perugini é deputada federal pelo PT/SP, coordenadora-geral da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Direitos Humanos das Mulheres e 2ª vice-presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. É também responsável pelas frentes parlamentares em Defesa da Implantação do Plano Nacional de Educação e de Promoção e Defesa da Criança e do Adolescente, no Estado de São Paulo, e integrante das comissões de Educação, Constituição e Justiça e de Cidadania, Licitações e da Crise Hídrica
Notícia anterior

Resumo da semana: Câmara dos Deputados cassa Cunha, aprova MPs e debate cultura do estupro

Próxima notícia

‘Precisamos defender o Enem com todas as nossas forças’, diz Ana Perugini