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ÁGUA, SANEAMENTO E A NOSSA CULTURA!

Uma das principais lutas dos movimentos sociais na Rio+20 foi pela reafirmação do direito humano à água e ao saneamento. Esse direito foi aprovado pela Assembleia das Nações Unidas em julho de 2010, mas continua enfrentando muitas resistências dos países ricos, influenciados pelas poderosas forças privatistas. Essa polarização diz muito respeito ao que acontece no Brasil, no momento em que se deseja a universalização do acesso à água e ao saneamento, sob total controle social.   De fato, a almejada universalização do saneamento básico em nosso país é um tema que nos chama à reflexão sobre a nossa cultura capitalista, baseada na competitividade e na busca do lucro. Estes são os objetivos principais, os valores cultivados e disseminados. A cooperação e a solidariedade, mesmo a empatia, são por sua vez adjetivos a serem considerados apenas no âmbito pessoal. Não são valores que possam ser vividos em escala coletiva.   Esse modo de pensar e de agir, típico da cultura capitalista, tem raízes profundas em nosso país, com o agravante de episódios de nossa história recente. Herdamos um Estado desestruturado em função da ditadura, entre os anos 1964 e 1984, e mais tarde desmantelado por uma política de privatização, até o início do século 21.   Hoje, temos o grande desafio da democracia e distribuição de riquezas através das políticas públicas. Desafio enorme, considerando a cultura do lucro, introjetada em nossa sociedade, o que ressalta o papel do Homem e da Mulher chamados, juntos, à integração e intervenção responsáveis por uma nova política, onde o público e o privado devam caminhar juntos.   Mas, como imaginar eficiência na conquista do objetivo traçado, com os instrumentos que temos? Os Indicadores do Desenvolvimento Sustentável 2012, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acaba de divulgar, dimensionam os desafios  para alcançarmos a universalização do acesso à água e saneamento.   Nos últimos 20 anos, o acesso ao abastecimento de água deu um salto, atingindo 93,1% na zona urbana. Na zona rural o percentual é bem menor, de 32,8%, o que mostra o compromisso que temos para que nossos agricultores, responsáveis pela comida que chega à nossa mesa, tenham total acesso à água potável e tratada.   Em termos de esgotamento sanitário, 80% dos moradores das zonas urbanas, e 25% dos moradores da zona rural, têm acesso à rede geral de esgotamento ou fossa séptica. Isso significa que cerca de 18 milhões de brasileiros ainda não têm acesso digno a esgotamento sanitário, convivendo, a sua maioria, com o esgoto a céu aberto. Os índices de esgoto tratado são ainda menores.   Cerca de 70% do esgoto coletado já são tratados, em relação aos 10% de 1995. Como o esgoto produzido não é totalmente coletado, temos que metade do esgoto ainda não é tratada no país. Isso significa que eles são lançados em rios e córregos, agravando o risco das doenças que continuam atingindo milhares de pessoas, principalmente crianças. O acesso à coleta de lixo é quase universalizado nas cidades, mas permanece também o desafio da destinação adequada dos resíduos, correspondente hoje a cerca de 70% do que é coletado.   Esses números mostram que ainda temos um caminho a percorrer para que a universalização do saneamento seja atingida, lembrando que temos forças conflitantes dentro da República Federativa, dificultando a aplicação dos investimentos necessários. Temos Estados, Municípios e a União e, ainda, as regiões metropolitanas e aglomerados urbanos. E temos também as esferas dos poderes Executivo, Legislativo, Judiciário e Ministério Público, além da imprensa, de conselhos.   Instalado o debate, somos chamados a pensar e a agir, principalmente considerando que, em grandes áreas metropolitanas, onde vive um número cada vez maior de brasileiros, já identificamos os sinais de escassez de acesso à água, o principal recurso natural, a fonte da vida.   Com a mobilização social, o Brasil vai aproveitar as oportunidades que tem pela frente, como a Copa de 2014, para dar saltos ainda mais importantes e necessários na universalização e na garantia do direito à água e ao saneamento, superando a cultura do egoísmo e os poderosos interesses capitalistas. É um enorme desafio, que apenas será vencido com a nossa união, com a força de nossa solidariedade.   Ana Perugini (PT), deputada, é coordenadora da Frente Parlamentar de Acompanhamento das Ações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).  – See more at: http://anaperugini.com.br/artigos/%C3%A1gua-saneamento-e-nossa-cultura#sthash.Z690q5QV.dpuf

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